@TamyBertola
Interrompi
minhas digressões mentais e olhei à minha frente. Meu tradicional trajeto casa-cursinho
de monótono que sempre fora, tornara-se um tanto quanto triste pelas reflexões
e conclusões a que cheguei. Um sujo –mas não por isso menos adorável- cão que
acompanhava um senhor de rua tentava atravessar a calçada a fim de chegar até
seu dono, que protegia-se do sol estival. Simplesmente não o fazia. Não por
inaptidão, mas por ser incessantemente barrado pelos passantes impacientes.
Durante todas as tentativas por muito, muito pouco não
levara pontapés. Os recuos tinham de ser rápidos, do contrário seria
literalmente esmagado como fazemos com as indesejáveis baratas que invadem
nossas casas. Mas não estou aqui para falar de baratas, nem de cachorros.
Apesar de me sensibilizar com a impotente persistência canina, o que me motivou
a escrever foi a causa de tal impotência: os medíocres.
Corpos
que, mesmo com todo seu 70% de água, conseguem se afogar em seus próprios egos
extraordinários. Com seu temperamento tempestuoso correm contra o tempo o tempo
todo. Olham para o relógio a cada minuto para controlá-lo. Mas a recíproca é
que é a proposição verdadeira. Mortos por dentro. Portadores de uma ocacidade
impressionante. Não sabem desviar dos outros corpos –ou de um cão- enquanto
transitam. Batem, esbarram, chutam e proferem vocábulos do mais baixo calão.
Meros fantoches. Robôs que só sabem “bláblárizar” bobagens a respeito de seus
problemas egocêntricos. Atarefados, atormentados, atrasados. Máquinas! São apressados
objetos mais imundos que a calçada onde fazem sua sinfonia mecânica de saltos.
A
sufocante pressa alheia que barrava o cão não condizia com a bela melodia que
saía de meus fones naquele instante. A beleza, genialidade e sutileza debussyana
contrastava com a feiura, mediocridade e antipatia dos carrancudos rostos
mortos. Finalmente chegou a minha vez de passar pelo cão e o barrar como todos
haviam feito. Não o fiz. Dei passagem a ele que iniciou sua travessia
euforicamente. Outras duas pessoas que vinham em sentido contrário acordaram da
automaticidade de sua inerte existência e também interromperam seus passos para
fazer daquele cão o ser mais feliz da rua.
Sinfonia
feia esta feita de saltos apressados e tic-tacs dos relógios. Tão
deploravelmente hipnotizante, tão vazia. Envergonho-me de fazer parte de uma
raça subordinada pelas leis da plutocracia. Regida por um constante jogo de
aparências. Composta por tanta apatia, descaso e ignorância. Na realidade, decomposta.
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