Parte 1
O sol forte que
pairava no ar indicava uma tarde quente.
Abri meus olhos, agora ardidos
pela réstia de sol que entrava pelos vãos
do local feito de madeira apodrecida, sentia minha cabeça girar, e ao
levar a mão a testa percebi que a mesma estava sangrando. Depois de um segundo
tentando me recompor, observei o local.
Estava dentro do que parecia ser um galpão velho e abandonado, o qual
ficava a uma distância mínima da cidade, já tinha o visto antes quando fazia minhas
caminhadas matinais, mas nunca havia estado realmente do lado de dentro.
O local estava cheio de galões gigantes e vazios, o que
anteriormente deveria ser usado para transporte de leite. Me encontrava abaixada entre dois destes galões, observando e ouvindo a conversa de dois sujeitos, e a
frente deles encontrava-se uma velha mesa de madeira, a qual jazia o corpo de
uma jovem moça de cabelos longos e loiros e havia muito sangue em suas vestes
perto da altura do peito, seus braços encontravam-se largados em volta da mesa,
e ao chão, exatamente abaixo de onde sua mão direita estava posta, havia um
pequeno pedaço de papel cintilando. E
então ergui novamente os olhos em direção ao corpo exposto, apavorada, enfim percebendo. Era verdade. A garota estava morta.
- Não há mais nada que possamos fazer. Ela se foi. – Disse o
homem mais baixo, suas vestes eram impecavelmente brancas, e seus cabelos eram ralos
ao lado da cabeça, a barba grande parecendo não ser feita a meses, e seu semblante soava um ar de cansaço e compaixão, como se quele homem estivesse
trabalhado demais naquele dia.
- Partirei da cidade hoje mesmo, e espero que você também dê
o fora o mais rápido possível.
- Não podemos simplesmente deixá-la aqui. E o jeito como você
fala soa como se alguém realmente pudesse nos ver, não seria justo a morte dela
cair sobre mim como se eu fosse realmente o culpado, tentei de tudo para salvá-la, você, melhor do que ninguém sabe disso. -Respondeu o outro sujeito. Ele estava com a
cabeça baixa, e seus olhos estavam fechados, como se não conseguisse acreditar
na cena que via. Este, diferente de seu companheiro, vestia algo como calças de
risca de giz , com o detalhe de uma gravata borboleta vermelha no colarinho do paletó. Ele era mais jovem e alto, porém
seu rosto transparecia tristeza e inconformação pela situação
em que se encontrava.

Os dois homem fitaram o corpo da garota por um momento, e no
segundo em que pisquei meus olhos , os dois haviam desaparecido do galpão.
Olhei a minha volta e andei abaixada até a mesa, levantei-me e observei o corpo
da garota exposto sobre a mesa , ela havia sido baleada a altura do peito, e
olhando-a de perto dei um suspiro de horror, percebendo que seu rosto me
parecia tão familiar naquele momento. Senti meu estômago embrulhar de medo, baixei a cabeça perdida em pensamentos quando meus olhos se voltaram ao papel reluzente que estava no chão. Ao junta-lo, o segurei entre meus dedos e
senti que meu coração de súbito começou a acelerar. Aquele papel parecia algo
como um pequeno convite, como se fosse
um passe para a entrada de algum evento importante, era exatamente igual ao que havia no meu bolso.
Comecei então a revirar os bolsos do suéter e lá estava ele, coloquei-os lado a
lado e os comparei, foi quando um filme em forma de lembrança se passou diante
dos meus olhos. Pela aparência aquele papel parecia ser de algo exclusivo,
disponível para poucas pessoas, difícil
de se conseguir, como um ingresso de uma banda famosa de rock que se esgota a
poucos minutos na bilheteria, e dos dois
lados do papel havia apenas um símbolo, algo como quatro círculos pequenos
envoltos a um único circulo gigante, mas eu não fazia ideia do que se tratavam
os papéis, e para onde levariam aqueles que os possuísse Vagamente me lembrava
de como conseguira o meu, havia ganhado de um garoto, cujo nome e rosto eu não
conseguia identificar, quando forçava a memória a única coisa que me vinha era
um borrão no lugar de seu rosto, lembro-me apenas de ouvi-lo sussurrar algo no
meu ouvido como “guarde-o com a sua vida, - suspirou- tenha cuidado garota”. Se ao menos eu o
visse outra vez, talvez pudesse me lembrar de parte das memórias e fatos que agora
não se encaixavam.

Voltei em si após
todos estes pensamentos e lembranças, e percebi que de alguma maneira eu sabia que aquela moça que agora jazia em
minha frente, havia sido morta por causa daquele pequeno pedaço de papel, mas
se realmente fosse por isso, por que o papel teria sido deixado ali? Que ligação
teria ela com aqueles dois sujeitos? Mas de alguma forma o motivo era o símbolo
daquele papel e o que havia por trás
dele, então não poderia ser por motivo de dinheiro, ou outro qualquer que fosse. Me vi diante de uma emboscada, precisava sair
daquele galpão e encontrar as respostas, ou eu poderia ser a próxima convidada
a deixar este mundo.
Rapidamente coloquei
os ingressos dentro do bolso e sai pelos fundos do galpão, e então, para minha
surpresa havia um aglomerado de pessoas ao lado de fora, mas como sai pelos fundos ninguém realmente pareceu notar quando sai do galpão. Juntei-me ao aglomerado
de pessoas e notei uma faixa amarela a minha frente que lia-se “não ultrapasse”,daquelas em que
os policias do seriado americano C.S.I costumam colocar nos locais onde ouve um homicídio, em roda do velho galpão em ruínas. Como eu teria ido parar naquele
galpão? O que realente estava acontecendo? Minha cabeça latejava e eu não sabia
como responder a todas aquelas perguntas que pareciam que pareciam me sufocar.
Havia policias por
todo lado, estavam revistando e fazendo perguntas a um grupo de garotos com botas de galochas e cigarro entre os dedos,
os quais pareciam assustados e sem saber o que se passava ali. Virei-me em
direção a estrada que me levaria para longe daquele local atormentador, mas
quando quase alcançara a entrada da estrada principal, fui surpreendida por dois
policias. Um deles era um homem de estatura mediana ,aparência robusta e
cabelos grisalhos. Trajando seu típico uniforme de policial com um distintivo muito
bem polido, e abaixo dele lia-se “Soldado
Jorge”. A outra figura, uma mulher,
de silhueta fina e postura elegante, tinha cabelos cacheados os quais estavam presos a um delicado coque, sua pele era negra, seus dentes surpreendentemente brancos, e ao
contrário do soldado, não havia identificação em seu traje.
Instintivamente
estiquei meus braços à espera de ser revistada, mas a mulher abaixou meus
braços com um sorriso maternal no rosto, e o soldado me envolveu em um abraço
sufocante, em seguida beijaram-me os lados da face, como se eu fosse uma frágil criança
de 5 anos.
- Querida o que está fazendo aqui? Está tudo bem com você? –
perguntou a mulher.
- Você precisa sair daqui, este lugar não é para você –
exclamou o soldado grisalho, parecendo preocupado, olhando para todos os lados
enquanto falava.
Fiquei
completamente confusa, e não fui capaz de dar uma única resposta as perguntas que me pegaram de surpresa, o
que fiz foi simplesmente assentir com a cabeça. Tomei o caminho da estrada que me levaria para casa, com os pensamentos
atordoados. Quem eram quelas pessoas que pareciam ter uma grande afeição por
mim como se me conhecessem a anos? Eu
realmente não me lembrava de conhecê-los.
Caminhei alguns metros a frente na estrada chutando as pedrinhas que encontrava no caminho, quando parei de
súbito perdendo o equilíbrio e tropeçando em meus próprios pés. A alguns passos
a minha frente havia a figura de um garoto imóvel, parecia estar com sua atenção
voltada para o outro lado da estrada. Vestia uma camisa de algodão branca e jeans preto, seu cabelo estava bagunçado, e
alguns fios tapavam-lhe os olhos, tinha pele claro e olhos negros como uma noite sem
estrelas. Virou-se rapidamente ao perceber minha presença. Era ele, o
garoto. Mas como pude reconhecê-lo se seu rosto era apenas um borrão na minha
memória. Outra vez, eu apenas sabia.
Ele continuou me
encarando, seus olhos fixados aos meus. Do outro lado da estrada, onde ele estava olhando-a a
pouco, estava um sujeito esquisito, encontrava-se parado ao pé da estrada como
se fosse parte da paisagem, seus braços cruzados sobre o peito. Usava uma
longa capa preta apesar do calor que se fazia, acompanhado de um chapéu o qual
escondia uma parte de seu rosto irreconhecível aos meus olhos. Continuou
nos observando, sua expressão era de
ódio, desafio e diversão. Mirava-nos com os olhos apertados, como se fosse a qualquer
momento como se fosse destroçar nossos corpos, como um lobo selvagem matando sua presa.
O garoto agora me olhava com ar de aflição, abrindo e fechando a boca como se não encontrasse o som da própria voz, então começou a balbuciar
palavras as quais eu não conseguia entender e nem mesmo ouvir, estava tentando
me dizer algo, mas a única coisa que consegui decifrar diante de seus lábios
antes que o sujeito atacasse, foi um desesperado e raivoso “corra, agora!”
Continua...
Um bom roer de unhas e até a próxima parte do post.
Amanda Baier