quinta-feira, 3 de maio de 2012

Missing Home


@tamybertola

Quando penso em tudo que deixei pra trás pra seguir meu caminho a primeira coisa que me vem à cabeça é, sem sombra de dúvidas, a família. Não os deixei pra trás, muito pelo contrário, mas a distância, inevitável, surgiu. Fui pra longe e a saudade dói. Uma hora e meia de distância não é considerado longe em termos de distância, mas tive que abdicar dos abraços diários, dos carinhos maternos, da companhia paterna, da bronca olho no olho. A pequenina distância física nada se compara à afetiva, exponencialmente maior.
Sinto saudade do aconchego do lar que diverge tanto do aperto do apartamento curitibano. Do pontual cheiro do café da mãe que anunciava o início da noite. Do compartilhar de cobertores no sofá durante as gélidas noites assistindo filme. Da maciez da minha cama e do encaixe inercial que ela, tão perfeita, exerce sobre mim. Do chuveiro.. tenho saudades até do chuveiro, combinação perfeita de água quente e vapor. Do reluzente piano e de seu efeito entorpecente sobre mim. Sua música cintilante durante as tardes mornas. Dos almoços. Dos gritos de “acooorda Taaaaamy, vem almoçaaar!!” que me despertavam da típica hibernação das férias e dos fins de semana. Saudade de dormir no sofá no verão e de observar as estrelas a noite com o pai. As estrelas se tornam tímidas em Curitiba.. não conseguem competir com o ofuscância da cidade. Saudade do pai. Saudade das estrelas.
Em Guaratuba a quantidade delas, tão brilhantes, salpicadas na noite escura, também me faz querer voltar. A lua que parece estar estranhamente mais próxima e mais brilhante. A fresca brisa marinha das manhãs, pura e leve. O céu, quando não encoberto pela espessa camada de gotículas de água –típico de Guaratuba-, estonteante. O despertar com o nascer do sol no mar, lento e colorido. O pôr do sol nas montanhas que deixa as tardes rosadas. O mar. A areia gelada da praia entrando no meio dos dedos durante a caminhada nas primeiras horas da manhã. O cheiro da chuva de verão quando cai na terra quente depois de um típico dia de verão. O sorvete derretendo rápido escorrendo pela mão.
Os sorrisos dos velhos amigos ao te ver depois de muito tempo. Os abraços apertados e as lembranças tão nostálgicas da infância. O antigo colégio, a antiga rotina, tão leve. As aulas de piano que me faziam tão bem. As aulas de inglês sempre tão divertidas. Os treinos de vôlei que passavam tão depressa. As poucas preocupações. Tudo faz falta. O calmo café da manhã que eu costumava tomar assistindo ao jornal foi substituído por um café atropelado nas portas do cursinho. O estudo, que antes só acontecia no dia anterior a prova bimestral, agora é um estudo constante, contínuo e exaustivo pra prova tão distante e decisiva. As longas conversas, substituídas por simples cumprimentos virtuais. O distanciamento. A saudade.
A rotina de cursinho que rouba aos poucos detalhes da antiga vida torna-se aceitável, não há escolha. Adiciona altas doses de preocupação, mau-humor e auto-cobrança. Esvai-se o tempo, precioso. Faz abdicar de tanta coisa pra conseguir uma vaga na universidade que até parece insanidade, pois saiba que é. Insanidade movida pelo desejo de conquista, de vitória, de estabilidade, de realização pessoal e profissional. Loucura. Saudade do que me foi roubado. Saudade do que deixei que me roubassem. Simples saudade.


(Jet - Shine On)


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