@tamybertola
Quando
penso em tudo que deixei pra trás pra seguir meu caminho a primeira coisa que
me vem à cabeça é, sem sombra de dúvidas, a família. Não os deixei pra trás,
muito pelo contrário, mas a distância, inevitável, surgiu. Fui pra longe e a
saudade dói. Uma hora e meia de distância não é considerado longe em termos de
distância, mas tive que abdicar dos abraços diários, dos carinhos maternos, da
companhia paterna, da bronca olho no olho. A pequenina distância física nada se
compara à afetiva, exponencialmente maior.
Sinto
saudade do aconchego do lar que diverge tanto do aperto do apartamento
curitibano. Do pontual cheiro do café da mãe que anunciava o início da noite.
Do compartilhar de cobertores no sofá durante as gélidas noites assistindo
filme. Da maciez da minha cama e do encaixe inercial que ela, tão perfeita,
exerce sobre mim. Do chuveiro.. tenho saudades até do chuveiro, combinação
perfeita de água quente e vapor. Do reluzente piano e de seu efeito
entorpecente sobre mim. Sua música cintilante durante as tardes mornas. Dos
almoços. Dos gritos de “acooorda Taaaaamy, vem almoçaaar!!” que me despertavam
da típica hibernação das férias e dos fins de semana. Saudade de dormir no sofá
no verão e de observar as estrelas a noite com o pai. As estrelas se tornam
tímidas em Curitiba.. não conseguem competir com o ofuscância da cidade. Saudade
do pai. Saudade das estrelas.
Em Guaratuba a quantidade delas, tão brilhantes, salpicadas na noite escura, também me faz
querer voltar. A lua que parece estar estranhamente mais próxima e mais
brilhante. A fresca brisa marinha das manhãs, pura e leve. O céu, quando não
encoberto pela espessa camada de gotículas de água –típico de Guaratuba-, estonteante.
O despertar com o nascer do sol no mar, lento e colorido. O pôr do sol nas
montanhas que deixa as tardes rosadas. O mar. A areia gelada da praia entrando
no meio dos dedos durante a caminhada nas primeiras horas da manhã. O cheiro da
chuva de verão quando cai na terra quente depois de um típico dia de verão. O sorvete derretendo rápido escorrendo pela mão.
Os
sorrisos dos velhos amigos ao te ver depois de muito tempo. Os abraços
apertados e as lembranças tão nostálgicas da infância. O antigo colégio, a
antiga rotina, tão leve. As aulas de piano que me faziam tão bem. As aulas de
inglês sempre tão divertidas. Os treinos de vôlei que passavam tão depressa. As
poucas preocupações. Tudo faz falta. O calmo café da manhã que eu costumava
tomar assistindo ao jornal foi substituído por um café atropelado nas portas do
cursinho. O estudo, que antes só acontecia no dia anterior a prova bimestral,
agora é um estudo constante, contínuo e exaustivo pra prova tão distante e decisiva. As longas
conversas, substituídas por simples cumprimentos virtuais. O distanciamento. A
saudade.
A rotina
de cursinho que rouba aos poucos detalhes da antiga vida torna-se aceitável,
não há escolha. Adiciona altas doses de preocupação, mau-humor e auto-cobrança. Esvai-se o tempo, precioso. Faz abdicar de tanta coisa pra
conseguir uma vaga na universidade que até parece insanidade, pois saiba que é.
Insanidade movida pelo desejo de conquista, de vitória, de estabilidade, de
realização pessoal e profissional. Loucura. Saudade do que me foi roubado.
Saudade do que deixei que me roubassem. Simples saudade.
(Jet - Shine On)
" Saudade do pai. Saudade das estrelas. " MUITO BOM!
ResponderExcluir(:
ResponderExcluir