sábado, 16 de junho de 2012

Saltos e Tic-Tacs



 @TamyBertola

Interrompi minhas digressões mentais e olhei à minha frente. Meu tradicional trajeto casa-cursinho de monótono que sempre fora, tornara-se um tanto quanto triste pelas reflexões e conclusões a que cheguei. Um sujo –mas não por isso menos adorável- cão que acompanhava um senhor de rua tentava atravessar a calçada a fim de chegar até seu dono, que protegia-se do sol estival. Simplesmente não o fazia. Não por inaptidão, mas por ser incessantemente barrado pelos passantes impacientes.
Durante todas as tentativas por muito, muito pouco não levara pontapés. Os recuos tinham de ser rápidos, do contrário seria literalmente esmagado como fazemos com as indesejáveis baratas que invadem nossas casas. Mas não estou aqui para falar de baratas, nem de cachorros. Apesar de me sensibilizar com a impotente persistência canina, o que me motivou a escrever foi a causa de tal impotência: os medíocres.
Corpos que, mesmo com todo seu 70% de água, conseguem se afogar em seus próprios egos extraordinários. Com seu temperamento tempestuoso correm contra o tempo o tempo todo. Olham para o relógio a cada minuto para controlá-lo. Mas a recíproca é que é a proposição verdadeira. Mortos por dentro. Portadores de uma ocacidade impressionante. Não sabem desviar dos outros corpos –ou de um cão- enquanto transitam. Batem, esbarram, chutam e proferem vocábulos do mais baixo calão. Meros fantoches. Robôs que só sabem “bláblárizar” bobagens a respeito de seus problemas egocêntricos. Atarefados, atormentados, atrasados. Máquinas! São apressados objetos mais imundos que a calçada onde fazem sua sinfonia mecânica de saltos.
A sufocante pressa alheia que barrava o cão não condizia com a bela melodia que saía de meus fones naquele instante. A beleza, genialidade e sutileza debussyana contrastava com a feiura, mediocridade e antipatia dos carrancudos rostos mortos. Finalmente chegou a minha vez de passar pelo cão e o barrar como todos haviam feito. Não o fiz. Dei passagem a ele que iniciou sua travessia euforicamente. Outras duas pessoas que vinham em sentido contrário acordaram da automaticidade de sua inerte existência e também interromperam seus passos para fazer daquele cão o ser mais feliz da rua.
Sinfonia feia esta feita de saltos apressados e tic-tacs dos relógios. Tão deploravelmente hipnotizante, tão vazia. Envergonho-me de fazer parte de uma raça subordinada pelas leis da plutocracia. Regida por um constante jogo de aparências. Composta por tanta apatia, descaso e ignorância. Na realidade, decomposta.


2 comentários:

  1. Entrando em minhas digressões, então, vejo cangurus e pílulas.
    "Hã?"
    Saltos, me lembram cangurus! Tic-Tacs, pílulas que eu precisava tomar a cada instante para poder viver.

    Tamy, já disse que estou idiota...

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