segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Confissões Póstumas de Capitolina Pádua

   Depois de 118 visualizações em dois dias do "Desculpas Póstumas[...]" começo, então, a escrever as "Confissões Póstumas[...]". Fiquei empolgado. 




   "De fato que Bento Santiago estava louco, que alívio não precisar mais chamá-lo de Bentinho, todos sabem disso. Não dava para aguentá-lo, com todas as suas murmurias, e choramingos de criançola. Bendito dia em que Escobarzinho foi ter com ele e jantar em sua casa. Pobre de Sancha, mas o que há de se fazer quando duas pessoas se amam?! Eu disse duas pessoas, e não recém-desfraudados e suas traquinagens. Juro que entendo Paolo Malatesta e Francesca de Rimini. Juro que entendo Guinevere e sir Lancelot. Juro que entendo Páris e Helena. Ah, vocês tolos, que não amam, fingem que amam, não entendem. Mas deixe-me confessar o que realmente aconteceu...
   É verdade que o amei. Mas quem nunca amou um amiguinho de infância?! E aposto que você, hoje, não o amaria mais. Há lembranças que devem ficar apenas em lembranças. Falando assim parece ridículo, mas se pararmos para pensar, uma lembrança que volta para ser o presente, se torna uma assombração. E assim, fui assombrada quando aconteceu aquele retorno do bacharel, lá da Europa, meu lugar de descanso eterno. Mas não foi assim desde o começo, como já disse, o amei. 
   Gostava da companhia dele, sua ingenuidade me divertia. Minha diversão me alegrava. E minha alegria, alegrava-o. Olhando para o passado, fecho os olhos, dou um sorriso de decepção e balanço negativamente minha cabeça, como fazemos ao lembrarmos de situações envergonhosas que fazemos na criancice. Desde não aceitar roupas e andar sempre com as vestes que viemos ao mundo, até jurar amor eterno a um outro bobão. Não nego que jurei amor. Mas você também já não jurou que seria jogador de futebol ou uma bailarina profissional, que seria astronauta ou policial?! Jurar criança é o mesmo que jurar demente. E foi o que aconteceu. Duas crianças juraram. Depois, um demente jurou. De nada vale, de nada Deus se preocupará - diferente de uma jura materna para que o segundo filho vingue. E foi aí que me aproximei de Dona Glória, doce mulher com um filho ingrato.
   Voltando a linearidade, depois de amar na infância, sofri na juventude. Sofri, mas como uma fênix, ressurgi das cinzas e nasci mais madura. Não minto que senti falta do meu amigo ingênuo. Mas ele morreu depois de ir para o seminário. Maldito lugar sagrado que ao invés de purificar, foi, eu acho, a fonte de toda malícia. E a cada final de semana que voltava, me magoava cada vez mais e acabava por extinguir os vestígios daquele amor infantil. E como uma luz naquele meu túnel escuro, veio Escobarzinho. 
   Eu, de minha janela, minha companheira desde que o "padrezinho" foi aprender a rezar missa, vi o homem da minha vida ter para com meu vizinho. E foi então que na minha vida nublada surgiu um feixe de luz do Sol. Acabamos nos conhecendo na casa de D. Glória. E foi o cruzar dos olhos que nos uniu. Mas sabíamos que seria impossível assumir. Até se submeteu casar com Sancha, aquela pobre coitada, para ficarmos mais próximos. O nome da filhinha deles em minha homenagem. Nossos encontros escondidos. Nossos inúmeros encontros escondidos. E o nosso filho lindo. Sim, nosso filho. A visão de Bento estava ótima. Na verdade a visão de todos, mas ninguém se pronunciava. Enquanto eu dissesse uma história, todos acreditariam nela e não teriam como provar o contrário, ainda mais depois do último nado. 
   Para a minha sorte, sempre medi bem minhas palavras. Daí a alcunha de dissimulada. Quem sabe em partes. Partes grandes, no caso. Mas aí veio o exílio. Não achei que ele faria alguma coisa. Sempre foi passivo. Sempre consegui contornar os problemas de discrição. Fiquei sem saber o que fazer, no início, quando ele me deixou na Europa, para me virar com meu filho, minha única herança de Escobarzinho. No início foi difícil. Adaptação, e tudo mais. Porém não mais difícil que a saudade que sentia do meu amor e, em segundo lugar, do meu país. Acabei abraçando meu lugar de descanso para chorar tudo aquilo que guardei ao lado daquele Casmurro. Chorei mais ainda, porque Escobar me prometera uma vez, que me levaria para visitar todos os países. Acabei por visitá-los sozinha, eu e minha herança. Não poderia deixar parecer que eu havia me conformado, deveria deixar um trunfo. Então, como martírio, escrevia as cartas a mais doce possível. Imaginava, em partes na carta, que estava falando com meu Escobarzinho. Então, como penúltima prova escrevi-as, para quem quer que seja, pudesse vê-las e ver que, em vida, não era culpada. Reconheço que minha última prova, foi um tanto que sem querer. No início amaldiçoava Bento Santiago, mas Ezequiel estaria ao meu lado para me julgar, mas agi antes disso. Foi então, que no meu último ato, da peça que encenei, foram os lamentos e choros para com meu filho. O joguei contra o suposto pai. E depois de morta, a ida dele para o Brasil, foi mais que perfeito para assombrar aquele que foi meu marido, no final de sua vida. 
   Me diverti quando criança. Ajudei senhoras doentes. Encontrei um verdadeiro-amor. Tive um filho com esse amor. Viajei. Conheci países. Veja e perceba, do que tenho para reclamar?! Se tive olhos de cigana, oblíqua e dissimulada, para mim valeu a pena. 
   Você deve estar pensando que aquele livro estava certo. Veja bem, na história de Gil Vicente, o louco se torna o parvo, e o parvo está além da culpa e aquém da ingenuidade. O Parvo-Louco  piorava na demência quando via a verdade, a mais pura verdade. Há quem diz que no mundo da loucura, não se enxerga a luz da realidade. Mentira! Eles só reagem de forma inesperada, mas ainda enxergam bem, e o inesperado foi o exílio para alguém passivo como ele. Nero via bem os problemas de Roma, mas agiu de forma inesperada - negativamente. Bento via bem os problemas conjugais, mas agiu de forma inesperada - negativamente para mim. 
   Acho sim que podemos ver o que queremos, por exemplo, se alguém busca perdão, assumir uma culpa que ficou pairando como uma dúvida interminável, é fácil. Li, sim, o "Desculpas Póstumas de Bento de Albuquerque Santiago" e nada me comovi. Na verdade ri. Ri, aqui do segundo círculo do Inferno, que todos os outros oito círculos ouviram. Rodo eternamente com Escobar abraçado comigo. Lancelot e Guinevere. Páris e Helena. Paolo e Francesca. Romeu e Julieta. E outros mil que se sacrificaram por amor.
   Maquiavélica? Maldosa?
   Perdidamente apaixonada! Envolta pelo amor! 
   Como disse antes, vocês tolos, que não sabem o significado de um verdadeiro amor, privilégio para poucos, não podem me julgar. Aqui, rodeada por amantes, até me taxo de recatada, por não ter assumido e arcado com as consequências. Todos aqui morreram com seus amores por perto, eu sofri o martírio de chorar durante anos no estrangeiro, a morte do meu grande amor.
    Bento, você estava mais para Lobo Neves, do que Brás Cubas. Aceite sua posição de Giovanni Malatesta. Seja casmurro sozinho. Confesso aqui, como minhas últimas palavras, sim, eu o traí. O amor da minha infância foi você, mas o da minha vida, foi Escobar. Pobre Escobarzinho, que agora sei que foi você o culpado da morte dele. Maldito! Não o desculpo e se viveu sua vida com a culpa do último nado dele, permanecerá sem minhas desculpas na tua pós-vida. Que fique a eternidade se lamentando pela culpa, ou se corroendo de raiva de, agora, saber a verdade. Se fiz sua vida um inferno, quero fazer a sua morte pior."




   "Por favor, antes uma amante como Capitu, que uma esposa como Capitu. Amém!".


@victorsendoda


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