segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Desculpas Póstumas de Bento de Albuquerque Santiago

    Para quem gosta de Dom Casmurro, apenas uma brincadeira saudável de mais um fã - EU - de Joaquim Maria Machado de Assis. Depois de tudo que Bentinho fez, ele se redime para com todos. Mas a surpresa ocorre quando Capitu confessa... no entanto, para a surpresa é preciso ler esta primeira parte.



   "Aqui, longe de toda arrogância, prepotência e loucura, que me assolou durante o entardecer e o anoitecer de minha vida, posso humildemente pedir desculpas. O infortúnio foi contar-lhes minha vida já assolado pela demência, comprometendo, assim, toda as palavras, desde aquele maldito Capítulo I, ao CXLVIII. Como um demente acreditando ser Napoleão Bonaparte, era assim eu acreditando ser Giovanni Malatesta. E ainda aqui, livre de toda a mediocridade do ciúmes, consegui, finalmente, reatar duas pontas. Não da velhice e infância, mas de toda a minha vida e da minha pós-vida. Todos vocês podem estranhar meu novo jeito de expressão, minha serenidade, minha linguagem, enfim, podem me estranhar. Mas como já disse anteriormente, agora estou além da alienação. Ciente estou de que não conseguirei recompensar todos que prejudiquei, mas, certamente, estas pessoas não se preocupam mais com isso deste lado. Ciente você deverá estar de que estas Desculpas Póstumas são para me comigo redimir. 
   Logo de começo lembro-me do poeta do trem. Aquele rapaz, ainda de coração puro, consegui contribuir para manchá-lo. Desculpe-me, três ou quatro vezes, tantas para cada pequeno cochilo que dei entre seus versos. Confesso que não gostei do apelido, mas aí está o sucesso da alcunha, quanto maior o desgosto maior ficou o tom de fidalgo. Maior ficou o Dom, o Dom Casmurro. E mais um enorme perdão pela ironia pesada no que disse que era seu o título daquele livro.
   À minha imaculada mãe, segue a próxima desculpa. Nos tempos de juventude, não pesamos na balança os motivos e consequências. Não pensei e nem sequer me coloquei ao seu lugar. No lugar de viúva, mãe, e chefe da família. Uma promessa à Deus, uma promessa de tantos anos, e eu, dentro de meus confins, a amaldiçoava. Desaventuradamente a amaldiçoava. Creio que aí começava minha insanidade. Não por ter que ir àquele seminário. Mas por ter que ficar longe daquela que era minha grande amiga. O modo como coloquei os termos pejorativos com o que vocês supostamente falavam "da gente do Pádua", ou "filha do Tartaruga", naquele infame livro, foi para tentar colocá-los como malignos e desrespeitosos. Perdão, mãe. Se no fim lhe fiz infeliz, não merecia. Meu irmão não vingado, meus nove longos meses de incertezas, tempos escuros, tanto nas rugas quanto nas vestimentas de luto, a distância do filho no seminário.. enfim, de tudo que sofreu, não merecia. Até coloquei naquele Capítulo LXVII, "Mamãe defunta, acaba o seminário". Ah, que desgosto de mim em vida. Aliás, que desgosto de mim em vida após abandonar os cabelos e aqueles doces lábios de Capitu. 
   Antes de continuar, me não conformo que sucumbi a demência! Sobrou para mim a compaixão - sorte que não foi o ódio -, a todos os outros, a ninguém, a quem quer que seja, sobrou as batatas. Aquilo que foi objeto de estudos, que era uma ilha perdida, agora sei que morei nesse continente. Seria melhor para todos se Simão Bacamarte me tivesse trancafiado em seu sanatório. Lá, não daria desgosto para minha família, não perderia o amor da minha vida, não teria sido ausente com meu filho, não tentaria dá-lo o maldito café e, por fim, não instigaria a morte do meu melhor amigo. Isso mesmo que você leu. "Não instigaria a morte do meu melhor amigo". Mas isso é para daqui a pouco...
   Ao meu único filho, venci a vergonha e aqui, aos teus pés, choro rios e mares de lágrima. Choro um Mar Egeu, um Rio Nilo, um Mar Morto - bem propício por ser Desculpas Póstumas -, um Rio Jordão e um Mar Galiléia. Choro pelos caminhos que me disse que trilharia e eu seco como passas, dei de escárnio. Rindo antes, chorando hoje. O primeiro mar para seu primeiro destino: a terra dos heróis mitológicos, a terra de Zeus, Grécia. O primeiro rio, para sua passagem intermediária antes da febre tifoide: a terra dos faraós, a terra de Rá, Egito. Por último, a terra de teu descanso, dos dois últimos mares e último rio: a terra das tribos hebraicas, a terra de tantos deuses, Palestina. Desculpe-me, filho, pela minha loucura. Quando embriagados pela insanidade, fazemos coisas que não são o que fazemos sóbrios, vemos coisas que não são o que veem nossos olhos. Via o Tio Escobar em você. Hoje já não sei. Só sei que reconheço a loucura. Portanto, desculpa. Você merecia mais do que um pai louco e ausente.
   Ao amor da minha vida, cabe minha maior atenção. Aquele primeiro amor a gente nunca esquece. No meu caso, foi o único amor. Confesso que tentei colocar um ar determinista e associar as molecagens de meninice com as visões distorcidas pelo ciúmes não fundamentado. Nenhum pedido de desculpa vai sanar minhas faltas. Nem quando repetia a definição de José Dias, "olhos de cigana oblíquas e dissimulada", nem quando jurava que me empenharia mais em tentar sanar nosso problema inicial, teimar com quem chamava de "agregado" para ficarmos juntos. Lembro-me perfeitamente de quando virei homem. Quando nossos lábios se encontraram entre penteados e acrobacias. Aquela sua inteligência e esperteza, mais esperteza que inteligência, de agir rápido quando se aproximava alguém, eu, no ápice de minha insanidade cheguei a pensar que fosse mais uma ação determinista de dissimulação, o qual tentei até associar em nossa vida adulta. Perdão! Creio até que seus olhos, aqueles ciganos, de José Dias, aqueles de ressaca, fosse uma espécie de droga que acabei me viciando. A minha analogia usada de ressaca de praia, confesso que é boa. Aqueles olhos me sugavam de tal maneira que ficar neles, a fitá-los, boquiaberto, com olhos secos de não conseguir piscar, era meu refúgio de toda aquela pressão caseira. Me angustiava sob o teto daquela casa de Matacavalos e contigo eramos só nós dois. Não acredito que deixei-me cair de joelhos reverenciando o bobo! E só lhe trouxe amarguras! A distância já me dava indícios da minha alienação. Nos sábados quando eu ia ter com a mamãe, já febril, e minha faculdade também em chamas, teve um em especial que te tive olhando um rapaz na rua. Quanta malícia minha. Chegar a acusar de traição por um olhar, mesmo que cigana ou "ressaqueado", não foi certo. Ah, que tolice. E quando ouvi na sala "Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela.." eu surtei! E o fim, para o controle de mim mesmo, foi ficar deitado em meu quarto, já jurado - mais uma vez - que não a veria nunca mais, e ouvir suas risadas e gargalhadas no quarto ao lado, no quarto de mamãe, quando você foi ter com ela já que estava doente.
   Adotamos aquele órfão. Formei-me bacharel em direito. Casamos. Casaram Escobar e Sancha. Respirei fundo e aliviado - pelo menos foi o que pensei. O casamento deu-me pretexto para fundamentar as razões do meu amargo ciúmes. E tudo começou a desmoronar. O chão que já era de areia, fez o teto desabar. Até então achava que a chuva pesada já tinha passado com os anos da juventude. Eu só queria ser feliz, mesmo que pelos caminhos errados. Cheguei ao ponto de me dizer baixinho: "Tu serás feliz, Bentinho; tu vais ser feliz". Qual nada. Foi só o tempo das nuvens tomarem folego e despencaram o maior dilúvio de todos os tempos. Nem mesmo Noé teve esse problema, visto que um dilúvio molhado, em si, não se compara ao dilúvio enciumado. Cheguei a enciumar com o modo com que meu grande amigo lhe chamava, "cunhadinha".  O filho, para mim, naquela época, era igual ao suposto pai. Como já disse: "vemos coisas que não são o que veem nossos olhos". Minha sede por ter um descendente, minha inveja com a vinda da Capituzinha,  acho que acabou transfigurando o rosto de Escobar no de nosso filho. E toda aquela quase tragédia do café. E mais e mais crises de ciúmes, quando o vi saindo de nossa casa, por exemplo. E quando desafiei-o. Não tive coragem, mesmo louco, de por naquele livro essa parte. Mas daqui a pouco me desculpo para com ele. Enfim, meu amor, minha eterna amiga, me desculpe por desconfiar de uma simples lágrima de luto e forçá-la a acabar o que restava de sua vida longe do Brasil, longe de nossa casa, longe de mim. O Ezequiel ainda me tentou contar como foi seu final de vida mas dei de escarra... Perdão! Confirmo que estava louco, sim. 
   Agora, minha culpa, tão grande quanto ao do meu amor, Capitu, foi para contigo, meu irmão. Escobar, oh Escobar. Maldita conversa que tivemos! Pela primeira vez exponho essa parte da história que não pus no livro. Aquele monólogo em que eu o desafiava cada vez mais para nadar mais e mais distante. Não te queria ver perto de minha esposa. Que malícia mais ignorante. Não te deixando nem responder e já incitando que não conseguiria ir mais além do que já fora. Eu conhecendo seu temperamento, deveria ter imaginado. Na verdade até passou pela minha mente, já desgastada, ir e não voltar. Mas não achei que iria de fato acontecer. E depois de receber a notícia daquele negrinho, meu coração parou por um momento e então bateu em dois ritmos. A primeira de felicidade. "Finalmente, Capitu, só para mim!". A segunda de tristeza. "O que foi que eu fiz?!". E com o peso da consciência me esmagando estava a ponto de tentar nadar para contigo. Mas então veio o funeral. E começou a bater no segundo ritmo, até o fim de meus dias. E nesse som ritmado do meu coração, já empedrado, ouvia rugir aquele teto, ouvia o dilúvio. Fiquei surdo para tudo mais; cego para a razão; insensível para com o mundo. Era então que eu tinha ficado velho, velho por dentro. Foi-se a Capitu. Foi-se o Ezequiel. Solitário, quis reatar minha vida atual, para o momento, com a melhor fase de minha vida, a infância, quando ainda tinha posses de minhas faculdades, de nada adiantou reconstruir aquela casa no meu Engenho. Enfim, meu caro, desculpe um velho amigo. Para mim, um pouco mais que amigo.
   Livre desse fardo que me angustiava, mesmo aqui, posso, enfim, descansar. Descansar nessa angústia tal qual a de Sísifo e sua pedra. Um enorme "desculpas" a todos que fiz sofrer com minha demência. Desde o poeta, ao meu maior amigo; desde mamãe, à minha primeira amiga; desde o José Dias, ao meu filho. Não tenhas, você, malícias de tua mulher...
(Bento de Albuquerque Santiago)"

por: Victor Hugo Luz Sendoda.





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Que tal um pouco do início do próximo post?

Confissões Póstumas de Capitolina Pádua.

   De fato que Bento Santiago estava louco, que alívio não precisar mais chamá-lo de Bentinho. Não dava para aguentá-lo, com todas as suas murmurias, e choramingos de criançola. Bendito dia em que Escobarzinho foi ter com ele e jantar em sua casa. Pobre de Sancha, mas o que há de se fazer quando duas pessoas se amam?! Eu disse duas pessoas, e não recém-desfraudados e suas traquinagens. Juro que entendo Paolo Malatesta e Francesca de Rimini. Juro que entendo Guinevere e sir Lancelot. Juro que entendo Páris e Helena. Ah, vocês tolos, que não amam, fingem que amam, não entendem. Mas deixe-me confessar o que realmente aconteceu...

...


"Que sempre venha essas inspirações, seja de resumo para vestibular, seja de qualquer que seja a origem. Amém!".


4 comentários:

  1. É inexplicável o bem que sinto, ao ler o que tu escreves. Parabéns

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  2. Adorei o que você escreveu! Texto muito bem escrito, gostoso de ler, de saborear cada palavra, cada frase. Dá pra vivenciar a história, realmente instigante e fabuloso. Continue escrevendo que lerei sempre com o maior prazer! Parabéns por escrever tão adoravelmente. Victor reinventando Bentinho hahaha Estou ansiosa para ler mais.

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  3. Simplesmente esse texto ficou incrível, eu particularmente adorei. Mesmo sendo um texto "longo", não achei uma leitura cansativa. Continue escrevendo :)

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  4. Valeeeeeeus galera.. =D Obrigado. =DD Do fundo do coração.

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